O Outro Lado da História
Quando os heróis das histórias que meu pai me contava antes de dormir não usavam uma camisa listrada preta e branca, usavam uma amarela. “Nilton Santos só vestiu duas camisas durante toda a sua vida: a do Botafogo e a da Seleção Brasileira. Ele é chamado de ‘A Enciclopédia do Futebol’”, meu pai me dizia. “Garrincha era a alegria do povo! As pessoas gargalhavam na arquibancada vendo seus dribles desconcertantes. Era ‘O Anjo das Pernas Tortas’”, continuava.

Cresci ouvindo meu pai me contar histórias sobre os ídolos da Seleção Brasileira, principalmente os que jogavam no Botafogo, que, depois de sua família, sempre foi sua maior paixão.
Ele narrava com um carinho especial os três primeiros títulos do Brasil (1958, 1962 e 1970), justamente porque grande parte dessas três seleções campeãs era formada por jogadores do Botafogo – clube que mais cedeu jogadores para a Seleção Brasileira em Copas do Mundo na história.
Meu pai me ensinou tudo o que sei sobre futebol. Tudo o que sei sobre esportes. A paixão dele se tornou minha também. Tanto que, quando cresci, me tornei jornalista esportiva.

Poucos dias antes da Copa do Mundo de 2018, tive a oportunidade de conhecer duas testemunhas do primeiro título do Brasil, em 1958 – mas do outro lado.
A final foi disputada contra a Suécia, dona da casa. Viajei a Estocolmo para entrevistar Owe Ohlsson, que aos 79 anos era um dos quatro jogadores da Seleção Sueca de 1958 que ainda estavam vivos, e Bengt Agren, de 88 anos, único membro do comitê organizador daquela Copa ainda vivo.
Os dois senhores levaram fotografias, jornais, broches, DVDs, camisas, livros, álbuns, reportagens – várias lembranças e relíquias da final inesquecível contra o Brasil. Inesquecível não apenas para os brasileiros, que venceram o Mundial pela primeira vez, mas também para os donos da casa, que ficaram encantados com os brasileiros.
“O público sueco começou a levar o time brasileiro e a nação brasileira no coração depois daquela partida”, Bengt me disse.
Eles, então, começaram a listar a escalação da Seleção Brasileira naquele confronto: “Nilton Santos, Garrincha, Didi, Zagallo…” Minha pele se arrepiou. E algo mágico aconteceu: fui transportada de volta à minha infância. A voz dos senhores suecos começou a se misturar com a voz do meu pai, ecoando o que ele já havia me contado duas décadas antes: “Do time titular de 1958, quatro eram do Botafogo. Didi foi eleito o melhor jogador daquela Copa, era o cérebro da equipe”.
Eu os ouvi falar sobre os mesmos jogadores que meu pai outrora havia transformado em heróis das histórias que me contava antes de dormir, com a mesma reverência, os mesmos nomes específicos, o mesmo nó na garganta. Só que esses homens haviam enfrentado aqueles jogadores em campo. E perdido.
Durante horas, eles deram vida a histórias que cresci ouvindo superficialmente, descrevendo-as com riqueza de detalhes. As pessoas que haviam vivido aqueles momentos em primeira mão estavam ali, bem diante de mim, compartilhando suas memórias. E eu era de novo uma criança encantada com os feitos lendários daquele time. A entrevista, que deveria durar apenas algumas horas, durou um dia inteiro.
Naquele momento, entendi que alguns dos mais devotos guardiões da maior geração do futebol brasileiro não são brasileiros. São suecos. E estavam do lado perdedor.
Para intensificar toda a emoção que se remexia dentro de mim, no fim do encontro, Bengt Agren me presenteou com um broche original de ouro usado pela delegação sueca naquela Copa, uma relíquia de valor inestimável que com certeza guardarei para sempre.

Hoje, assim como meu pai fazia comigo, sou eu quem conta essas histórias para as minhas sobrinhas. Elas nunca viram o Brasil ser campeão, mas já conhecem bem o passado glorioso do país no futebol. E agora posso narrar algo que meu pai nunca pôde: as memórias dos próprios suecos.



