Manolo e Eu

Click here for English.

Quando me perguntam sobre a minha viagem ao Mundial de 2018, esperam sempre que fale do hat trick de Cristiano Ronaldo frente à Espanha. E, inevitavelmente, acabo por falar. Mas a primeira imagem que me vem à memória é o enorme bombo vermelho e branco no lugar ao lado do meu, no estádio.

Foi o bombo que me chamou a atenção antes de perceber quem era o seu dono. Toda a gente à volta parecia reparar nele – adeptos espanhóis paravam para o fotografar, enquanto outros se aproximavam para lhe apertar a mão ou trocar algumas palavras. Naquele momento, ainda não percebia porquê.

Depois olhei melhor para o homem sentado ao meu lado. Era Manolo el del Bombo.

Durante mais de quatro décadas, Manolo acompanhou a seleção espanhola aos quatro cantos do mundo, tornando-se parte da própria experiência de assistir a um jogo da equipa nacional. O bombo, o chapéu vermelho e a sua presença nas bancadas tornaram-se inseparáveis do futebol espanhol. Era um daqueles raros adeptos que deixam de ser apenas adeptos e passam a fazer parte do próprio folclore do futebol.

E, naquela noite em Sochi, Manolo estava sentado precisamente ao meu lado.

O que mais me impressionou de imediato foi a facilidade com que se relacionava com toda a gente. Cumprimentava todos com um sorriso, tirava fotografias com quem lhe pedia e conversava alegremente com outros adeptos. Mas era também exatamente aquilo que se esperava do adepto mais famoso de Espanha: ruidoso, apaixonado e impossível de ignorar.

A própria cidade de Sochi já tinha sido uma surpresa – palmeiras e o Mar Negro, em vez da Rússia cinzenta que imaginava –, mas a maior surpresa ainda estava por chegar, já dentro do estádio.

Antes do apito inicial, Manolo estava rodeado de amigos e de outros adeptos espanhóis. Havia conversas constantes, fotografias e muitas gargalhadas. Nós, portugueses, observávamos tudo a pouca distância, brincando entre nós que iríamos passar os 90 minutos seguintes a ouvir aquele famoso bombo. Antes do jogo, praticamente não houve mistura entre adeptos. Cada grupo manteve-se junto dos seus, guardando a rivalidade para dentro das quatro linhas.

Mas o que aconteceu em campo superou todas as expetativas. Ronaldo marcou cedo. Espanha respondeu. Portugal voltou à carga. Espanha passou para a frente. A cada reviravolta, o estádio dividia-se entre a euforia e a desilusão, consoante a camisola que cada um vestia. Ao longo de todo o jogo, Manolo quase nunca deixou de tocar, tornando-se a banda sonora incessante daquela noite.

Cada ataque espanhol parecia acelerar o compasso e, sempre que Espanha se colocava em vantagem, o som do bombo tornava-se ainda mais intenso, ecoando por todo o nosso setor.

Já nos minutos finais, Portugal perdia por 3-2.

Foi então que surgiu o livre.

Ronaldo colocou a bola à entrada da área. Instalou-se aquele silêncio estranho que, por vezes, antecede os momentos extraordinários. Quase sem pensar, olhei para o lado.

Manolo tinha as duas mãos pousadas sobre o bombo.

Ronaldo rematou. A bola descreveu uma curva perfeita até ao canto superior direito da baliza e os adeptos portugueses explodiram de alegria.

Quando voltei a olhar para Manolo, ele sorriu e abanou a cabeça. Não havia frustração no seu rosto. Apenas a expressão serena de alguém que sabia ter acabado de assistir a um momento verdadeiramente extraordinário.

Entre uma batida e outra no bombo, Manolo conversava constantemente com os amigos espanhóis. À nossa volta, os dois rivais ibéricos trocavam as habituais provocações futebolísticas que talvez seja melhor não referir. 

Houve brincadeiras dos dois lados, à medida que o marcador ia mudando. Mas, quando o árbitro apitou para o final, a rivalidade desapareceu. Apertámos as mãos, sorrimos e felicitámo-nos mutuamente. Depois de um jogo daqueles, parecia simplesmente a forma mais natural de terminar a noite.

Durante 90 minutos estivemos em lados opostos. Durante 90 minutos apoiámos seleções diferentes. Ainda assim, quando penso nessa noite, não me lembro da rivalidade. Lembro-me de um homem, de um bombo e do único momento em toda a noite em que nenhum dos dois emitiu qualquer som.