A final que eu quase não vi
A minha primeira lembrança de Copa do Mundo é a de 1994, edição realizada nos Estados Unidos. Nela o Brasil encerrou um jejum de 24 anos sem título mundial, ganhando da Itália nos pênaltis.
Isso já seria emoção o suficiente – mas o destino achou que ainda não era o bastante.
Eu tinha 8 anos e curtia as férias na casa de uma tia em Santo Ângelo, cidadezinha no interior do Rio Grande do Sul. O cenário era o mesmo de tantas outras casas brasileiras: amigos reunidos, churrasco e todo mundo vidrado na TV para assistir à final.
Não acreditei quando Romário, logo ele, perdeu um gol feito e deixou o jogo ser resolvido nos pênaltis. Parecia um mau presságio.
O ambiente estava tenso. Todo mundo apreensivo. Afinal, o Brasil não ganhava a Copa desde 1970, época em que Pelé ainda jogava.
Quando as cobranças de pênalti estavam quase começando, tudo ficou escuro. Enquanto Brasil e Itália estavam prontos para decidir o título na Califórnia, faltou luz na pequena Santo Ângelo. É muita falta de sorte, certo?
A noite, no entanto, ainda não tinha acabado. Saímos correndo da casa da minha tia para verificar se o problema era só com a gente ou na rua inteira. Felizmente a casa de um vizinho seguia com as luzes ligadas.
Não pedimos licença, nem era necessário. Nos amontoamos ao redor da pequena TV da casa e acompanhamos com angústia o sofrimento que só uma decisão nos pênaltis consegue proporcionar.
Baresi bateu primeiro e chutou para fora. Euforia. Márcio Santos, pelo Brasil, bateu e o goleiro Pagliuca pegou. Apreensão.
Albertini fez o dele e Romário viu a bola bater na trave antes de balançar a rede. Ali o coração de todo brasileiro quase parou de bater. Evani também converteu e Branco deixou tudo igual: 2-2.
Então a sorte virou de vez para o nosso lado. Taffarel defendeu a cobrança de Daniele Massaro e o capitão Dunga, com sua característica camisa para dentro do calção, deslocou o Pagliuca com muita categoria. A comemoração dele é icônica até hoje. Faltava só um gol para o Brasil ser campeão.
Este gol nunca veio, mas você nunca ouvirá um brasileiro reclamar. Roberto Baggio, o craque da Itália, chutou a bola por cima da trave e encerrou o jejum. Brasil tetracampeão mundial de futebol.
Depois, só comemoração. Todo mundo na rua gritando, balançando bandeiras e sorrindo. Pessoas que trocavam apenas um bom dia se abraçavam e alguns até choravam de alegria. Uma felicidade genuína e difícil de explicar. Coisas que só o futebol consegue fazer pela gente.


